ir-remediável

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Balneário Camboriú, SC, Brazil
'Talvez eu não seja adulta o suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas.'

5.3.12




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"A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo. 

Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao desatino."



Crônico!





''O mundo não é sincrônico. Se fosse, como explicar que, nos últimos anos, as escovas de dentes tenham se transformado em algo próximo às naves de Star Wars, enquanto os botijões de gás continuam os mesmos desde muito antes de o homem pisar na lua?

Os extintores de incêndio, as BICs e os cinzeiros que ficam perto do elevador (tanto o cilíndrico quando o quadradinho, com areia), também são herança de outra era, em que uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa e todas as coisas continuavam a mesma coisa por pelo menos algum tempo.
Tenho uma simpatia por esses velhuscos. São como aquele japonês encontrado numa ilhota, muitos anos depois de finda a Segunda Guerra, que se recusava a aceitar a rendição do imperador Hiroito. Mas, se o soldado desinformado apareceu em jornais do mundo todo assustado, com uns olhos arregalados de mangá, os cinzeiros, botijões e BICs me parecem ostentar um orgulho nobiliárquico. Como se a BIC, do alto de seu sangue azul, dissesse às escovas, celulares e aparelhos de som: vocês podem estar sob os holofotes, mas passarão e não deixarão memória, enquanto eu continuo aqui, simples e longeva, como as amebas, as bactérias.
Meu apego pela permanência dos objetos não é só estética, mas de ordem prática. Lá pelos vinte anos, meu bisavô entrou numa loja de sapatos e comprou um par. Gostou tanto que voltou à sapataria nas próximas cinco décadas. Foi enterrado com aqueles sapatos.
. . . 
Sabem, eu gosto do mundo. E das coisas dentro do mundo. Apego-me a elas como a um livro, uma praia, uma música. Não quero que otimizem Cem Anos de Solidão, redesenhem Copacabana, remixem Blackbird. Ah, eficiência! Quanta beleza ainda tombará em seu nome?
Os fins não justificam os meios. Os fins, aliás, não existem: só os meios. Afinal: eu, você, os japoneses, as escovas de dentes, os botijões, as BICs e o Bispo de Botucatu voltaremos ao pó de que viemos, provando que, no fim das contas, o mundo talvez seja sincrônico. Eu, definitivamente, é que sou anacrônico.''






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''Benditos os que conseguem se deixar em paz.
 Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos.

 Apenas fazem o melhor que podem. 
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. 
De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre...''










"Se eu não posso mudar um acontecimento,

 se não posso mudar a vida, 

então que ela me modifique."












''Então não há nada mais sensato a fazer do que soltarmos as mãos dos trapézios, perdermos a frágil segurança de nossas solidões e nos enlaçarmos em pleno ar. Talvez nos esborrachemos. Talvez saiamos voando. Não temos como saber se vai dar certo – o verdadeiro encontro só se dá ao tirarmos os pés do chão –, mas a vida não tem nenhum sentido se não for para dar o salto''.





1.2.12










São as nossas canções...






''Não acredito em poetas nem em filósofos gregos ou alemães, em psicanalistas ou em biólogos. Não acredito em teorias ou conselhos, em receitas ou testes de revistas. Não acredito nos mais velhos e nem em livros de autoajuda, em filmes americanos ou na Wikipédia. Não acredito em cartomantes nem em simpatias, em cantadas infalíveis ou versículos da Bíblia. Não acredito em Eros ou Afrodite, nos programas do Sílvio Santos ou na genética. Nem no García Márquez e nem no Sternberg. Não acredito em Santo Antônio ou no Dia dos Namorados.

Eu acredito em canções. Eu acredito no Elvis Costello. Entendo tudo que os discos do Stevie Wonder querem me dizer. Acredito nos caras do Coldplay. Acredito em Solomon Burke, Cazuza, Nirvana, Queen, Tom Waits, The Smiths, All Green, Frank Sinatra, Neil Young, Verve e Radiohead. Estou com "Something", dos Beatles. Confio em "Baby, I Love Your Way", Peter Frampton. Me consolo com "Leaving On A Jet Plane", na versão de Peter, Paul & Mary. Posso ser definido por "Comfortably Numb", Pink Floyd ou pela turma do Bread, com "Lost Without Your Love". Tim Maia, John Lennon, Carly Simon, Marvin Gaye, Jim Morrison, Chico Buarque, Otis Redding. Esse é o pessoal que você realmente não perde por escutar.

Não existe nada grafado em papel ou num divã de vinil que faça sua alma compreender do que é feito o amor. 
Já ouviu falar em paixão, intimidade, sexo, loucura, companheirismo, saudade? Se já, aposto 50 dinheiros, não foi porque leu em algum lugar ou ouviu um professor os descrevendo. Você cruzou com isso em vida ou então pôs seus headphones e deixou-se levar por uma canção, as três de uma madrugada insone. 
Um dia você precisou aliviar seu sofrimento e quem estava lá? Sua mãe, um analista, um amigo bêbado? Fodam-se eles. Você ligou o rádio e alguém como Ian Curtis ou os rapazes do U2 disseram "ei cara, pare de lamentar sua perda, você já deu a volta por cima, pense no quanto você está melhor hoje". Aí você muda o disco.

O que você entende por grupo de ajuda? Weezer, New Order, Velvet Underground? Exato. 
Quando alguém te disser "eu estarei lá por você" só acredite se vier do Bon Jovi, Jacksons Five ou do Kenny Rogers. Eles são os únicos que você pode contar, no duro. Do resto, esqueça. 
Eles vão falar todo tipo de porcaria, cheios de razão, arrogância e menosprezo vão ditar regras, dizer que isso que soca seu peito é passageiro. E quem são eles? Um bando de diplomas pretensiosos na parede empoeirada, rindo da sua cara pelas costas, seu suposto idiota.

Para dilatar uma alma contraída não há formação. Só duas coisas são capazes de arrepiar os cabelos do seu braço: um toque carregado de ternura ou a bela melodia num solo de guitarra. A única coisa que realmente importa acontece no pátio em intervalos, e não nas salas de aula. Seja qual for a história, se houver uma canção narrando sua situação, não importa o que disserem ou o que estiver escrito. 
É amor.''




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''Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento."